Queridos peregrinos, hoje a caminhada foi diferente, não fomos explorar trilhos marcados nem muito menos caminhos antigos ou canadas suspeitas, hoje foi dia de ir acrescentar conhecimentos sobre o cultivo do ananás, na ilha de São Miguel, nos Açores. Este fruto é mundialmente conhecido.
E foi com o sol a agraciar a nossa caminhada que saímos de casa, até o sol queria que fossemos aprofundar a nossa cultura sobre a produção do ananás, que até ao presente dia não passava de comer o ananás, quer dizer já tínhamos visto as estufas que, felizmente, pontilham vários locais da ilha, mas nunca tínhamos entrado nelas, nem muito menos visto o ananás nas suas várias fases de crescimento, mas curiosidade não faltava e, como nunca é tarde, hoje foi o dia de irmos às estufas saciar a nossa vontade de saber e lá fomos nós tranquilas e felizes.
A história do ananás em São Miguel é antiga, tem mais de 150 anos. A introdução desta planta dá-se no ano de 1832, mas nesta altura era uma simples planta ornamental, só mais tarde quando o fungo “gomose” devasta a cultura da laranja, que era a atividade económica mais proeminente da ilha de São Miguel, é que os produtores de laranja começam a procurar outras culturas para substituir a laranja e surge o ananás que passa de planta ornamental para planta a ser cultivada para aproveitamento do fruto para ser vendido. A variante que havia sido introduzida naquela época foi a “Smooth Cayenne” de folha lisa, originária da América Central. De referir que não se sabe ao certo quando surgiram as primeiras estufas, mas no ano de 1848, o jornal “O Agricultor Michaelense” publica uma notícia em que dá a conhecer a primeira estufa que permitia cultivar o ananás.

José Bensaúde, a 12 de novembro de 1864, toma a iniciativa de começar a exportar o ananás para Inglaterra e ainda neste ano constrói-se a primeira estufa com a capacidade para plantar 800 plantas. No decorrer do século XX este fruto já era exportada para países como a Alemanha e Rússia. No ano de 1996, o ananás é registado com Denominação de Origem Protegida (DOP), tornando-se um produto cuja qualidade e características se devem ao meio geográfico onde é produzido, ou seja, é exclusivo da Ilha de São Miguel, nos Açores. Atualmente, existem cerca de 230 produtores de ananás em São Miguel e cerca de 1500 estufas que produzem, anualmente, entre 700 a 1000 toneladas de ananás dos Açores.
A nossa visita começou numa tenda, onde vimos o método de produção do ananás que passava num vídeo e que era complementado fisicamente com as plantas nuns expositores e uma miniatura de uma estufa e digo-vos é um método muito trabalhoso, mas tudo o que é bom dá trabalho. Assim e após ver o vídeo, vou fazer um resumo sucinto sobre o cultivo do ananás. A produção inicia-se com a plantação das tocas, que são extraídas e desfolhadas das plantas que produziram bons frutos no ano anterior. Estas tocas dão origem a pequenas plantas às quais se dá o nome de “brolhos”. Estes depois são retirados da “toca-mãe” e transplantados, para outra estufa tradicional, feita de madeira e vidro, para terem espaço suficiente para crescerem e onde permanecerão até serem colhidos.
De referir que as estufas têm os vidros caiados de branco, para protegerem as folhas do ananás de queimaduras provocadas pela incidência direita da luz solar, muito em especial nas estações da primavera e do verão, quando o sol é mais quente. Estas estufas estão preparadas para captarem as águas das chuvas em tanques para depois serem usadas nas regas da fruta. Esta rega durante os meses quentes é feita semanalmente e nos meses mais frios é feita de quinze em quinze dias.

Passados 5 a 7 meses da plantação definitiva das plantas são aplicados fumos para induzir a floração, ao longo da estufa são dispostas latas com material orgânico para ser queimado. Este material orgânico contém Etileno que é uma das hormonas responsáveis pela floração.
Mais tarde, quando o ananás atinge 1/3 do seu tamanho procede-se à capação da coroa, ou seja, remove-se o meristema central desta parte da planta, isto permite que esta concentre toda a sua energia no fruto em detrimento da coroa e é graças a este processo que, muitas vezes, a coroa do ananás dos Açores é mais pequena do que a dos restantes “primos”, digamos assim. Depois deste processo minucioso e moroso, deixa-se o fruto crescer por dois anos e para o colher as pinhas (frutilhos) têm que estar cheias com pelo menos 25% da típica pigmentação laranja. Após a colheita do fruto faz-se a recolha do rizoma (toca) para se dar novamente início ao ciclo do cultivo dos novos ananases.
Saímos da tenda e fomos ver in loco as estufas e as plantas. A visita não seria visita se não tivéssemos sido do contra e termos começado o itinerário ao contrário, refira-se que o trajeto está bem marcado, mas como íamos distraídas a falar sobre o que tínhamos visto na tenda entramos na primeira porta que estava aberta. No entanto, tudo se fez e para absorver tudo como deve ser e tirar fotos fizemos a volta às estufas duas vezes. A segunda volta, não pensem vocês que foi para irmos fazer sauna já que dentro das estufas nem as portas e janelas abertas nos salvam do intenso calor, foi mesmo para tentar apanhar as estufas vazias, porque nós residentes não conhecíamos o local e pelos visto não éramos a únicas nesta condição porque pessoas não faltavam a visitar as estufas.

Para terminar a visita às estufas, que em tudo foi muito enriquecedora, fomos ao bar provar este fruto emblemático dos Açores, que se dá a conhecer pelo nome de ananás. Comemos 200 g deste fruto maravilhoso, que era bem docinho e com o sabor bem apurado, pois tinha recebido raspas e sumo de lima.
Fiquei encantada com esta caminhada cultural e decidi escrever este texto para a divulgar e quem sabe despertar o interesse de mais residentes e não residentes para irem visitar as estufas. Um bem-haja e boas caminhadas!
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