Etapa 1 – Matriz / Ribeira Chã
Sábado sombrio e a ameaçar chover, mas não nos deixamos demover, como gostariam os deuses do tempo que ficássemos em casa, e fomos participar na primeira etapa do projeto Pelos limites do concelho de Vila Franca do Campo, seguimos rumo à primeira capital da ilha verde, a qual só foi destituída deste cargo após o sismo de 1522 e falamos, claro, de Vila Franco do Campo a terra das bananas, dos ananases, das famosas queijadas da Vila e, obviamente, da louça de barro.

Estávamos no mês de abril, batiam as 8h30m no relógio da igreja da matriz. Estacionamos o carro junto ao edifício da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, que mais tarde viemos a saber não ter sido este local a primeira casa desta edilidade. A edificação que víamos havia sido construída no século XVIII com o propósito de ser a sede da câmara, uma vez que a construção anteriormente aqui existente havia sido destruída pelo referido sismo. Mais tarde fomos convidados a entrar no edifício e fiquei a saber que as pedras usadas na construção das escadas haviam sido reutilizadas de um antigo pelourinho que havia sido desmantelado. Ao sairmos do edifício olho em frente e na altura do patamar das escadas do edifício a imponente estátua do capitão donatário que fundou Vila Franca do Campo, em 1444, Gonçalo Vaz Botelho, ali colocada no ano de 1954. A estátua foi executada por Canto da Maia (1890 – 1981) e o plinto é da autoria de Manuel António de Vasconcelos (1907 – 1960). Descemos as escadas passamos o jardim e no cruzamento da igreja da Misericórdia onde habita o Nosso Senhor da Pedra, assim chamado porque está sentado em cima duma pedra, viramos à esquerda rumo à zona marítima. Passamos a Praia do Corpo Santo e chegámos a um passeio de cimento que contornava a costa. Este passeio levou-nos a uma olaria e à parte mais interessante do passeio, pelo menos para mim. Nos meus tempos de estudante, numa aula de antropologia, o meu Professor Rui Sousa Martins mencionou que em Vila Franca do Campo estava-se a estudar a possibilidade de se criar um roteiro dedicado à famosa louça de barro fabricada neste concelho, mas o tempo foi passando e nunca mais ouvi falar sobre o tal roteiro até ao dia em que participei neste passeio e vim a descobrir que o Roteiro da Olaria já havia sido inaugurado no ano de 2020. E digo-vos gostei tanto do roteiro e da explicação dada pela oleira Alexandra que decidi que vou escrever um texto dedicado ao mesmo. Assim, não me vou adiantar muito sobre esta parte da caminhada que prosseguiu ziguezagueando pelas ruas onde se encontram instaladas as olarias e o forno da louça. Após visitarmos as olarias e o forno que fazem parte do roteiro seguimos pela Rua da Cancela, no fim desta rua viramos à esquerda e descemos a Estrada Real que nos levou ao Poço Largo, daqui a vista para o ilhéu da Vila é soberba, subimos a Rua Luís Medeiros Rezendes Paiva, viramos para a Rua Padre António Cassiano. Antes de viramos para a Avenida dos Bombeiros Voluntários houve alguém no grupo que referiu que se seguíssemos em direção aos pastos havia uma Lapinha, eu fiquei logo com pulga atrás da orelha, tinha que ir descobrir esta Lapinha num futuro próximo, mas seguia serena atrás dos caminhantes que subiam a avenida. No fim da avenida viramos à esquerda andamos uns metros pela Estrada Regional e depois viramos para a Rua da Lombinha, aqui encetamos uma descida, por momentos pensei íamos descer rumo à Praia do Degredo e subir por um atalho que há no fim desta praia, mas não, viramos à direita começamos a subir em direção à Estrada Regional por onde tornamos a caminhar mais uns metros. Ao longe a torre sineira da igreja de São Lázaro mostrava-se tímida captando a minha atenção, atravessamos uma ponte, do cimo da qual reparei que na ribeira existiam umas construções em ruínas. Alguém referiu serem antigos moinhos de água e claro fiquei cheia de vontade de ir ver os moinhos de perto, mas infelizmente a caminhada não nos levou até eles. No entanto, fica o registo do local para mais tarde ir explorar. Mais à frente os caminhantes viraram para a Rua da Carreira, no fim desta rua passamos pela Ponte do Tamborileiro que guarda em si uma lenda que gostaria de partilhar convosco. Então, reza a lenda que há muitos anos na Grota do Barro, os camponeses regressavam às suas casas para descansar após mais um dia de trabalho, os vigias que zelavam pela segurança deste local deixaram entrar um grande grupo de Corsários que invadiram e vitimaram as populações. No regresso ao barco, um tamborileiro dos corsários perdeu-se e para dar sinal que estava ali não parava de tocar o seu tambor. Graças a esta lenda a grota recebeu o nome de Tamborileiro e por conseguinte a ponte que atravessava a grota e que dá acesso para a Rocha dos Campos também ganhou a mesma denominação.

Deixamos a linda ponte do tamborileiro com os seus arcos quebrados para trás e seguimos andando mais um pouco na Estrada Regional, mais à frente viramos à esquerda para a Rua Rocha dos Campos, à nossa esquerda começamos a ver a bonita Praia da Pedreira que apesar de ser pequena, é uma das minhas favoritas por ser de difícil acesso não é muito frequentada. No fim desta rua atravessamos a estrada e descemos ao lugar da Praia dos Trinta Reis. O intuito deste desvio era visitar o museu hidrográfico, mas a senhora que tem a chave não estava em casa pelo que seguimos atravessando a Ribeira da Praia e após uma breve subida duma canada estreita chegamos à antiga zona das Courelas. Nesta zona existiam parcelas de terra cultivadas compridas e estreitas. Para variar, porque já estávamos fartos de asfalto, chegamos novamente à Estrada Regional, a qual atravessamos e entramos no parque de estacionamento da Praia de Água d’Alto, que fica junto à Central Hidroelétrica da Praia que é a única das antigas 4 fábricas da Luz que ainda está em funcionamento. Ao acabar o parque de estacionamento encontramos, mais uma vez, nossa melhor amiga, a Estrada Regional, desta feita caminhamos pelo passeio que acompanha a estrada, chegamos à zona do hotel, o guia fez uma paragem para dizer que antes de existir neste sítio um hotel havia uma casa de veraneio e que neste local ainda existiam algumas edificações e espaços que eram dos tempos da referida casa, como era o caso da ermida, da piscina que era um antigo tanque, dos campos de ténis que eram os antigos terreiros onde plantavam os cereais e dos Dragoeiros que existem na entrada principal do hotel, que segundo o guia são centenários, uma vez que haviam sido mandados vir e plantados pelos donos da casa de veraneio. Fiquei curiosa, pois desconhecia por completo que ali tivesse existido uma casa pelo que quando cheguei a casa fui investigar para saber mais sobre a história prévia ao hotel. Das minhas leituras descobri que o terreno onde agora existe o hotel pertencia ao Marquês da Praia e Monforte. Neste terreno existia uma casa solarenga que nas suas imediações tinha uma Ermida dedicada a Jesus, Maria e José (também é conhecida pela Ermida do Desterro do lugar da Praia). Esta ermida tem uma cartela no frontispício que indica que a sua construção acabou em 1714. Também das minhas leituras saíram nota de que nesta área também existiu um forte cuja pretensão era defender a ilha de ataques.
Mais à frente, uma das praias mais requisitadas pelos residentes e não residentes da ilha de São Miguel a praia de Água d’Alto, que é uma das maiores da ilha, a mesma tem um areal negro, o qual revela a sua origem vulcânica e conta com 600 m de extensão. Neste dia e porque o sol havia decidido estender os seus raios sobre a ilha para aquecer os humores, viam-se no areal algumas pessoas, umas aproveitavam para contemplar o mar e repor a vitaminas, enquanto outras brincavam. O mar parecia um rio convidando a dar um mergulho, ao longe o Convento das Cabaças, majestoso e tranquilo, lembrava o seu propósito, o de ter sido a primeira moradia do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Futuramente, este convento vai ser a moradia de muitos turistas, uma vez que os donos vão transformar esta edificação num alojamento de turismo cultural. Com o avançar da caminhada passamos pela singela Praia dos Trinta Reis ou, como é chamada por nós residentes, a Praia Pequena de Água d’Alto. Um pouco mais à frente viramos à direita e iniciamos a subida à freguesia da Ribeira Chã, a acompanhar o caminho a ribeira que dá o nome à freguesia. A caminhada teve o seu término junto à moderna igreja dedicada a São José.

A caminhada foi muito agradável, o dia ensolarado e todos os que participaram proporcionaram que assim o fosse! No regresso e porque o percurso havia sido curto decidimos inventar um novo trajeto de regresso alternativo para ser diferente! Um bem-haja e boas caminhadas.
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