Umas aventuras pela Ilha de São Jorge

Velas, 9 de junho de 2021.

Caro Peregrinação,

Espero que ao receberes estas linhas te encontres bem. Eu pela ilha do Dragão (São Jorge, Açores. Assim, chamada porque o impacto da primeira vista de quem aqui chega é sempre marcado pela longa cordilheira que sai do mar, como se fosse o dorso de um animal mítico, o dragão de São Jorge, mas cheio de arribas verdes) continuo as minhas explorações enquanto turista e a pensar quando te começas a juntar. Não sei porque me abandonas sempre que saio da ilha, se acompanhasses estas explorações seriam ainda mais interessantes.

Envio-te esta carta no desígnio de te meter a par da minha passagem por São Jorge, terra com boa comida, gente afável e muito mato para explorar, como não ser feliz nestas condições? Por cá não faltam fajãs, penso que sejam mais do que 70 pelo menos é o que me dizem as pessoas com quem falei até à presente data e, não, não penses que as vou conseguir ver todas houvesse pernas, pois para além das fajãs quero meter pés na grande rota que liga o Topo aos Rosais. Pelo que vi até agora há fajãs para todos os gostos até há umas que vais gostar muito, uma vez consegues chegar de carro, como é o caso, por exemplo, da dos Cubres, da dos Vimes e da das Pontas, claro que como boa pedestriniana fui as estas fajãs a pé, apesar de alguns locais me terem oferecido boleia. Outras há que só mesmo a pé e digo-te haja pernas não para descer que todos os santos ajudam, apesar de ficares com os joelhos moídos com as descidas, mas para subir nem te conto para não ficares assustado. Curioso é existir um engenho tipo tirolesa nas fajãs de mais difícil acesso, como por exemplo na Fajã d’Além para que sejam enviados mantimentos e lenha aos moradores destes locais mais isolados e nos quais não existe acesso de carro.

Vista da Fajã do Mero

São Jorge tem uma particularidade, é das poucas ilhas do arquipélago onde se produz café e, claro está, tive que ir à Fajã dos Vimes espreitar as plantações. Para aqui chegar fiz o trilho que sai do Portal e desce até à Fajã dos Vimes. Pelo caminho és acompanhado pela ilha do Pico na linha do horizonte. Antes de chegares à fajã passas pela Fajã do Fragueiro onde podes visitar a ruína da casa da família do Maestro e Compositor Francisco de Lacerda, de nome completo, caso não saibas meu amigo Peregrinação, Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda, foi o quarto e último filho de João Caetano Pereira de Sousa e Lacerda (1829-1913) e de Maria Utília da Silveira (1829-1917), pertencentes a famílias com algum relevo social de origens nas ilhas do Pico e do Faial. Francisco nasce no ano de 1869, na freguesia da Ribeira Seca, concelho da Calheta, Ilha de São Jorge e morreu em 1934 em Lisboa. Foi uma figura de grande relevo na vida cultural portuguesa do seu tempo e um dos açorianos com maior visibilidade no estrangeiro: compositor e chefe de orquestra, exerceu a sua atividade sobretudo em França e Suíça, mas também em Portugal e, por alguns períodos, nos Açores. Este trilho para mim assumiu ser de grande importância pelo peso da história que carrega, uma vez que aqueles degraus que desci para chegar à Fajã dos Vimes foram os mesmos que tantas vezes esta figura de relevo subiu e desceu para chegar ao seu lar de veraneio, foi uma honra.

Chegada aos Vimes senti algum desapontamento porque não vi as plantações do café, mas como sou positiva com a vida penso que quis o destino que assim fosse para ter razões para aqui voltar. No entanto, não deixei que este sentimento negativo me invadisse. Mesmo não havendo plantações de café, sabia que nas imediações existia uma ponte suspensa, a senhora do “Cantinho do Piano”, local onde fiquei instalada, falou-me desta ponte. Assim sendo, segui caminho rumo ao Cavalete pelo caminho mais uma fajã riscada da lista, a Fajã dos Bodes. Aqui o tempo até parece correr mais devagar ainda vês casas e adegas tradicionais e curioso foi ver uma “porta do rato” penso seja assim que se chama, ou seja, é uma porta com uma abertura na parte inferior para que o gato entre e vá caçar os ratos. Mais à frente, o Cavalete e a sua ponte suspensa que quer parecer-me foi aqui construída para servir de suporte ao trilho oficial que aqui passa vindo da Fajã São João. Sair da Fajã dos Vimes pelo caminho asfaltado que leva à estrada regional revelou-se não ser a melhor opção para sair desta fajã uma vez que é um caminho muito sinuoso e inclinado, mas mete inclinado nisto, o bendito parecia nunca mais acabar com tanta curva, deveria ter voltado pelo trilho oficial, mas serviu de lição numa próxima oportunidade já sei o que fazer.

Vista para as Fajãs d’Além e do Ouvidor

Deixando a Fajã dos Vimes para trás, segui rumo ao Topo não era tarde nem cedo para meter os pés na grande rota. Para chegar ao Topo apanhei nevoeiro bem cerrado na Serra do Topo e D. Sebastião nada de chegar, apenas as ameaças da sua chegada. A costa e o ilhéu do Topo são áreas protegidas para gestão de habitats ou espécies ocupando uma área total de 388 hectares. O ilhéu dista da costa 400m, ocupa uma área de 12 hectares e tem uma altitude máxima de 19m. Na época de verão é comum verem-se vacas a pastar neste ilhéu. Neste local nidificam o garajau-comum, o garajau-rosado, o painho da madeira, o frulho e o cagarro. Ao longo da costa é possível observar fauna endémica como a Vidália, o Trovisco-Macho e o Cedro-do Mato.

A grande rota inicia-se ou termina-se conforme a situação, eu iniciei a mesma, junto ao Farol da Ponta e fiz a ligação até Santo Antão, pelo caminho passei pela Igreja do Topo, Casa dos Tiagos, antiga casa do último Capitão-Mor do Topo Tiago Gregório Homem da Costa Noronha (séc. XIX), atualmente é o edifício da Junta de Freguesia. Daqui fiz um pequeno desvio à Ponta do Topo, que em conjunto com toda a região oriental de São Jorge forma a zona mais antiga da ilha. Ainda passei pelo convento Franciscano de São Diogo e por uma antiga vigia de baleia. Ao chegar a Santo Antão fui até à igreja.

Vista para o Ilhéu do Topo e o Farol da Ponta

Interessante é que não tenho visto muitas pessoas na rua pelos sítios que passo, mas não te sei dizer o porquê disto acontecer, pensei para comigo que talvez se prenda com o facto das horas que vou caminhar, ou então, pode estar ligado às escolas estarem fechadas, ou ainda, ser mesmo assim, as pessoas serem mais caseiras.

 A esta altura já deves pensar rica turista esta que vai a São Jorge e não passou pela Fajã dos Cubres e pela Caldeira do Santo Cristo, pois meu caro seria imperdoável se não o fizesse pelo que guardei o melhor para o fim. Não só passei por estas fajãs, como ainda tive tempo para ir meter outra vez os pés na grande rota fazendo desde a Ponta dos Rosais até ao Parque Florestal das Sete Fontes.

Fajã dos Cubres

Deixa que te conte estas minhas últimas aventuras por aqui em São Jorge, como já vinha sendo habitual o dia acordava sombrio, mas com o passar das horas o sol acabava por me vir visitar. Comecei o dia metendo os pés na grande rota, sai do Parque Florestal das Sete Fontes que é um dos mais importantes da ilha, ocupa uma área de 50 hectares e foi inaugurado em 1976. Seguindo as indicações fui até ao Farol da Ponta dos Rosais, o caminho é feito por uma estrada de terra batida e fui acompanhada à direita pela ilha Graciosa e à esquerda pelo Pico e Faial, que estavam meios encobertos. Esta zona da Ponta dos Rosais pertence ao parque Natural, sendo um monumento natural que ocupa uma área de 170 hectares e tem uma altitude de 376 metros. Aqui fui ver o farol desativado, ao qual não se consegue aceder, o ilhéu e uma antiga vigia de baleias. Saindo desta zona, segui para a Fajã do Ouvidor para ir visitar a famosa zona de banhos a Poça do Simão Dias. O dia ainda agora tinha chegado a meio, mas havia tempo para fazer o trilho que liga a Fajã dos Cubres à Fajã da Caldeira do Santo Cristo. Ambas são as fajãs mais procuradas na ilha, a primeira (Cubres) integra as “Maravilhas de Portugal Aldeias”, desde 2017. No seu interior existe um pequeno lago onde pássaros migratórios fazem paragem antes de chegarem ao seu destino final. A segunda (Caldeira do Santo Cristo) é conhecida pela população única de ameijoas, que é comercialmente explorada. Nesta caldeira existe uma laguna que oferece proteção das condições marítimas o que faz com que seja uma boa zona de maternidade para vários peixes, a destacar o Mero, o Badejo e a Tainha. Ainda é possível observar aves como o Tentilhão, a Alvéola, o Garajau-comum, o Garajau-rosado e o Maçarico Galego. A flora mais destacada é o feto, o perrexil-do-mar e o bracel-da-rocha.

Caldeira do Santo Cristo

No interior desta fajã um cemitério, esta é a primeira fajã que encontro um cemitério e a ermida do Santo Cristo, que foi construída nos anos de 1832 a 1835. Esta ermida representa a importância que a religião tem para as pessoas que habitam este local. Todos os primeiros domingos de setembro realiza-se a festa em honra a Santo Cristo da Caldeira com procissão e  onde são servidas sopas do Espírito Santo. Em tempos idos a população da ilha fazia romarias a esta ermida. Na atualidade, estas romarias já não têm tanta expressão.

E pronto Peregrinação esta carta conta de forma sucinta a minha passagem por esta ilha mística, o resto conto-te quando estivermos juntos, para ver se te começo a abrir o apetite a que me acompanhes.  

Despeço-me de ti com um até breve e vai preparando as pernas que estiveram paradas por estes dias para irmos trilhar mal meta o pé na ilha.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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