Sevilha, uma cidade inspiradora.

Os árabes chegaram à Península Ibérica no século VIII e com eles veio o batismo destas terras com o nome de Al-Andalus, com o passar dos anos o nome foi sendo atualizado foneticamente e na atualidade a antiga Al-Andalus passou a Andaluzia. Este nome na contemporaneidade está concentrado numa região no sul de Espanha marcada por muitas colinas, campos agrícolas e rios, a segunda maior Comunidade Autónoma, a Andaluzia, cuja capital é a cidade Sevilha.

Para chegar ao centro de Sevilha tive que percorrer muita estrada, no carro entranhava-se um cheiro intenso a azeite, olhando pela janela confirmava o que o meu nariz já havia sentido os muitos campos de oliveiras e os seus lagares. Esta passagem pela estrada deu para perceber que todo o espaço na terra dos “Nuestros Hermanos” é altamente rentabilizado e aproveitado, viam-se muitos campos com árvores de fruto e cereais.

Pátio das Laranjas da Catedral de Sevilha

O sol trespassava a janela do carro aquecendo a alma e o corpo. No entanto o sol, este bandido escondia a verdadeira temperatura que se fazia sentir lá fora, frio, muito frio e bastante desagradável por sinal. Ao longe começo a vislumbrar o Skyline de Sevilha que ao longo dos anos, muitas vezes, foi pintado tendo edifícios baixos, onde o destaque era a Giralda, antigo minarete que na atualidade é a torre sineira da catedral. No entanto, desde 2015, o perfil desta cidade mudou e a torre da catedral perdeu o seu estatuto de edifício mais alto para a Torre Sevilla ou Torre Pelli, obra do arquiteto César Pelli que com os seus 180,5 metros destronou a torre sineira e fez com que o perfil desta cidade mudasse e ficasse a destoar, é estranho ver o casario tão baixo e no meio da cidade sair aquela torre, o olhar fica desagradado.

No meio dos meus afazeres lá fui conseguindo conhecer um pouco desta cidade que encanta com o seu charme. O Alcazar Real (Alcazar, deriva do árabe al-qasr e em espanhol significa fortaleza ou palácio) foi o primeiro lugar que captou a minha atenção e mereceu a minha visita, mas sobre este palácio fortificado falarei com mais detalhe em outro texto.

Prossigo explorando Sevilha nas imediações do Real Alcázar, a Catedral de Nossa Senhora da Sé, esta é o maior templo gótico do mundo, foi construída no século XV sobre os restos da antiga mesquita e por este motivo a sua forma não é a tradicional cruz latina, mas sim um quadrado. Desta antiga mesquita conserva-se o minarete, a Puerta del Perdón e o Pátio das Laranjeiras. O minarete que ganhou o nome de Giralda é na atualidade o campanário, foi construído à imagem do minarete da mesquita de Koutoubia, em Marrocos, com uma única diferença, a Giralda é encimada por uma lanterna e pelo Giraldillo (escultura que representa o triunfo da fé), ambos construídos em estilo renascentista. Esta torre tem 104,06 metros de altura e do seu alto tem-se uma vista deslumbrante sobre a cidade e sobre o próprio templo. Para se chegar ao seu cimo é preciso subir as suas 35 rampas. Sim leu bem, não há escadas, mas sim rampas, que são bem largas por sinal. Fiquei intrigada com aquelas rampas pelo que quando cheguei a casa dediquei algum tempo a fazer algumas leituras sobre Sevilha e descobrir que a construção das referidas rampas em vez de escadas era para que o sultão pudesse subir ao cimo do minarete a cavalo e, assim, apreciar a vista.

A visita pelo espaço da catedral pode ser desconcertante. Esta é enorme e tem muitos pontos de interesse pelo que fica difícil centrar ou focar o olhar num só local. Comecei por uma das laterais deste monumento e após ter quase dado a volta completa encontrei finalmente o que procurava e dei por mim a confirmar que não era a única a procurar pelo túmulo de Cristóvão Colombo, uma vez que quando ali cheguei parecia ter encontrado a porta dum formigueiro, tantas eram as pessoas que ali se centravam. Esperei pacientemente pela minha vez de contemplar o túmulo. A figura de Cristóvão Colombo dispensa apresentações, é historicamente conhecida. No que se refere ao seu túmulo, este é da autoria do escultor Arturo Melida y Alinari e data de 1891. As quatro figuras que transportam o féretro de Colombo, representam os quatro reinos que constituíam a Espanha em 1492: Castela, Leão, Aragão e Navarra. No centro da catedral, o Retábulo Maior que é o maior que existe no mundo cristão. Esta obra de arte é feita em madeira policromada, tem uma superfície de 400m2 com 44 relevos e mais de 200 figuras de vários santos.

Torre del Oro

Antes de entrar na catedral reparo que a mesma é rodeada por coluna ligadas entre si por correntes. Estranhei tal coisa, nunca tinha visto tal cenário. Quando cheguei a casa fui pesquisar e, então, vim a saber que estas serviam para marcar os limites entre a jurisdição civil e a eclesiástica no século XVI, ou seja, o direito de asilo que impedia que os oficiais de justiça entrassem nos lugares sagrados para prender pessoas.

À semelhança do Alcazar, tanto a Catedral, como a Giralda também estão inscritas na lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO, desde 1987.

Plaza de España

Saio da catedral e penso que não apreciei tudo como devia ser, mas não desanimo é só mais uma razão para voltar. Decido passear um pouco pelas ruas desta cidade, a cada canto era surpreendida por espetáculos de rua de dança, o Flamenco, e digo-vos nunca vi dança mais sedutora do que esta. Enquanto parava para ver e apreciar a dança dava conta que todas as árvores que fui vendo ao longo dos passeios, desta zona, eram laranjeiras, que estavam bem carregadas de fruta, dizem que toda a esta fruta é aproveitada. As ruas levam-me às margens do rio que divide a cidade, o Guadalquibir, e foi aqui que descobri a famosa Torre del Oro. Esta estrutura fazia parte duma antiga muralha defensiva que foi construída para proteger esta metrópole da entrada de embarcações inimigas no porto. Esta torre cujo nome se deve a ter sido revestida a azulejos dourados noutros tempos, foi construída em 1220 e tem 36 metros de altura. Reza a lenda que para além da sua função defensiva esta também servia de ninho de amor para os encontros entre o rei e as damas que cortejava. Na atualidade, alberga um museu naval, onde se podem ver maquetes de barcos, bússolas, cartas de navegação e documentos antigos, mas antes de se instalar de aqui o museu esta teve funções de capela e prisão.

O dia caminhava a passos largos para o seu final e apesar do adiantar da hora avancei com o plano de ir até ao Parque Maria Luísa para ver a Plaza de España. Esta praça foi construída para acolher a Exposição Ibero-Americana, em 1929. A obra projeto de Hannibal González teve o seu início em 1914, para que ficasse pronta a tempo da exposição nela trabalhavam diariamente 1000 homens. Este complexo colossal tem a forma de um grande semicírculo que se abre como se fosse um abraço, à volta tem um grande edifício que representa os quatro antigos reinos da Espanha, o qual é construído em tijolo exposto, decorado com cerâmica, tetos em caixotões, ferro forjado e mármore esculpido. As extremidades da construção são emolduradas por duas torres de estilo barroco com mais de 70 metros de altura. A sua base é decorada com um belo conjunto de azulejos, onde existem 48 bancos que representam as quarenta e seis províncias peninsulares e os arquipélagos das Canárias e Baleares. As províncias estão dispostas por ordem alfabética e cada banco tem o brasão, o mapa e um azulejo com um evento relevante da história de cada uma das respetivas localidades. A praça é delimitada por um canal com 515 metros, o qual pode ser atravessado numa das quatro pontes existentes. No centro da praça há uma fonte, obra de Vicente Traver, a qual tem sido questionada uma vez que choca com a estática do local.

Metropol Parasol

O meu dia estava destinado a acabar na Plaza de la Encarnación para ir ver a maior estrutura de madeira do mundo, a Metropol Parasol, ou como é comumente chamada, as Setas de Sevilla (Cogumelos de Sevilha). Esta estrutura, desenho do arquiteto alemão Jürgen Mayer-Hermann, teve a sua construção entre 2005 e 2011, as suas dimensões são 150 x 70 metros e uma altura de 26 metros. Na cobertura existe um pequeno passadiço que oferece uma vista panorâmica sobre a cidade e foi aqui que acabei o dia, a ver o pôr-do-sol e a assistir ao espetáculo de luzes e música.

No dia seguinte e ainda com a música Juan Peña “El Lebrijano” na cabeça, despedi-me de Sevilha, as saudades, estas já eram muitas, mas tal como “El Lebrijano” certo dia disse: “O que Sevilha te dá, ninguém te tira”. Também eu sabia que tudo o que aqui conheci, vivi e experienciei ninguém me poderá tirar. Segui viagem com o sentimento de que poderia ter recebido ainda mais desta cidade que muito tem para oferecer. No entanto, eu não tinha mais disponibilidade para aqui ficar, pelo que ficam razões para aqui voltar.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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