Real Alcázar de Sevilha, o palácio das mil e uma noites.

Estou de passagem por Sevilha e no meio dos meus afazeres lá fui conseguindo conhecer um pouco desta cidade que encanta com o seu charme. O Real Alcázar (Alcazar, deriva do árabe al-qasr e em espanhol significa fortaleza ou palácio) foi o primeiro lugar que captou a minha atenção e mereceu a minha visita. Este local que atualmente é um complexo de palácios foi mandado construir pelo primeiro califa de Al-Andalus, Adb-ar-Rahman II, no ano de 913, no local onde anteriormente existia uma fortaleza romana, mas ao longo dos anos este foi sendo ampliado, por exemplo, no século XI, Al-Moetamid, o último rei da dinastia Abbadid, fez várias obras que alteraram o desenho original deste palácio e no século XIV, tanto Alfonso X de Castela, como Pedro I de Castela, o Cruel também fizeram adições ao desenho original do edifício, o último ordenou a construção de um novo palácio cujas obras foram continuadas pelos seus sucessores.

Este complexo de palácios apresenta nos seus vários edifícios influências da cultura cristã e muçulmana, nos quais é possível ver vestígios de arte islâmica e restos dos estilos mudéjar e gótico, para além de elementos renascentistas, maneiristas e barrocos. De referir que o Real Alcázar é provavelmente o palácio fortificado mais antigo da Europa ainda em uso, quando a família real de Espanha se desloca a Sevilha é aqui que fica instalada. Em 1987, o mesmo foi declarado pela UNESCO Património Mundial da Humanidade.

Entrei no Real Alcázar de Sevilha por uma imponente porta rosa que tem 8,5m de altura, a qual tem no seu topo um azulejo do século XIX com um leão coroado e é esta imagem que fez a porta ganhar o nome de a Porta do Leão. Ao passa pela mesma atravessei a antiga muralha árabe que dá acesso ao Pátio do Leão. Neste pátio à esquerda encontra-se a Sala da Justiça, que é a primeira obra mudéjar do Real Alcázar, obra do Afonso XI no primeiro terço do século XIV. Esta divisão é decorada com gesso com motivos da natureza uma tradição da arte muçulmana e nela é possível ver os escudos de Castela, Leão e da Ordem da Banda. No centro da sala há uma fonte com um canal de água que liga à piscina do Pátio do Gesso. O teto é coroado por uma armadura octogonal de caixotões de madeira lacerada. Esta sala no reinado de D. Pedro I foi usada como sala de audiências.

Sala da Justiça

No final deste pátio há um conjunto de três arcos, vestígios duma antiga tela almóada, ao passar por estes entrei no Pátio da Montaria, assim chamado porque era neste espaço que se concentravam os caçadores que acompanhavam o rei D. Pedro I nas suas caçadas. Este dá acesso ao Palácio Mudéjar, ao Palácio Gótico e à Casa de Contratação. Em 1364, D. Pedro I manda construir um palácio e com esta construção o pátio ganha a configuração que se pode ver na atualidade. Resta referir que sob as lajes deste local estão soterradas ruínas de vários palácios almóadas do século XII.

No pátio segui em frente e entrei no Palácio Mudéjar, também conhecido por Palácio de D. Pedro I. Este edifício é o coração do Real Alcázar e tem muita semelhança à opulência da Alhambra de Granada com uma arquitetura mudéjar com características mouriscas e cristãs. Neste local há vários sítios de interesse, eu destaco o Pátio das Donzelas ou Patio de Las Doncellas. Este tem uma piscina a qual à volta tem um jardim afundado que foi redescoberto em 2005. Em volta do pátio, que é decorado com reboco mudéjar e azulejos do século XVI, veem-se vários arcos poli lobados. O piso superior é um acrescento feito pelos reis católicos. Inicialmente este pátio servia de sala de espera para as donzelas antes de serem designadas para suas tarefas, mais tarde passou a servir de espaço onde a realeza cumpria os seus deveres oficiais e entretinhas os seus convidados. Resta referir a lenda ou mito no qual este pátio está envolto, diz-se que os mouros exigiam cem virgens de suas colónias como tributo. Destaque ainda para a Sala dos Embaixadores ou Salón de Embajadores que foi construída no século XI, mas mais tarde D. Pedro I faz obras neste espaço para o tornar na sala central do seu palácio. Esta sumptuosa divisão quadrada possui uma linda cúpula dourada. Há teorias que dizem que esta representa o céu e a terra, simbolizando o papel superior atribuído ao Rei. Foi neste espaço que se realizou o casamento de Carlos I e Isabel de Portugal, em 1526. As varandas de ferro forjado foram obra de Filipe II, no final do século XVI. Por fim, destaco o Pátio de Bonecas ou Pátio de Las Muñecas que se localiza nas profundezas do palácio, sendo este o local mais privado do Real Alcázar que foi projetado para a Rainha Isabel II. Deve o seu nome às cabeças que decoram os arcos mais próximos do pátio. As colunas e capitéis deste espaço são muito bonitos têm origem romana e califada. As salas em torno do pátio foram completamente remodeladas no reinado dos reis católicos e o piso superior foi acrescentado no século XIX.

E dou por mim a entrar nos jardins do Real Alcázar que não é uma área única, mas sim vários jardins demarcados como se fossem compartimentos e todos eles dotados duma beleza resplandecente. São muito ricos na sua flora e fauna apresentando uma grande variedade de plantas e árvores. A juntar a esta flora, para complementar a beleza do local, muitas lagoas e fontes que transformam este espaço num cenário perfeito para passar um dia romântico. Aqui perdi-me no meio das suas sebes que formam um labirinto luxuriante. Estes jardins, em tempos idos, eram uma extensão da cozinha onde os pomares de laranjas serviam de alimento aos convidados. Nesta área podemos visitar uma das estruturas mais elegantes dos jardins, o Pavilhão de Carlos V, construído no século XVI, em estilo Mudéjar. Ainda podemos visitar o local mais fotografado do Real Alcázar, os banhos da Dona Maria de Padilha, que estão localizados sob o Pátio do Cruzeiro, no Palácio Gótico. Esta piscina, que na atualidade é um tanque de águas pluviais, foi idealizada para manter a temperatura amena durante o período mais quente do ano. Entrar neste espaço é como entrar num ambiente quase sinistro, passa-se por um túnel que abre para uma área de pouca luz, na qual a atração principal é uma longa piscina retangular decorada com muitos arcos que se sobrepõem à torre.

Saio dos banhos e parece que sou uma vampira, a luz do sol fere-me os olhos, mas os jardins com a sua exuberante beleza chamam por mim e continuo a visita. Ao longe vejo a estátua do deus Mercúrio, esculpida no século XVI e a Galeria do Grotesco, assim chamada devido à forma como está decorada. Esta área foi construída nos finais do século XVI para aproveitar uma antiga muralha almóada que dividia os jardins originais dos pomares, tem teto elevado, colunas que criam pórticos e é obra do arquiteto Vermonda Resa que a mandou ornamentar com diferentes tipos de pedras, imitações de mármore e belos afrescos onde se veem cenas mitológicas clássicas. Subo as escadas da galeria e lá de cima tenho uma visão encantadora dos jardins.

Banhos da Dona Maria de Padilha

Desço as escadas viro à esquerda e entro no Palácio Gótico mandado construir por Afonso X, no século XIII, que representa o triunfo da ideologia cristã sobre o passado muçulmano. Para a construção deste edifício, o rei mandou vir os pedreiros de Burges, tendo o mesmo sido construído sobre o antigo palácio almóada, mais tarde é reformado por Carlos I. No entanto, pouco resta da edificação original que foi fortemente danificada pelas réplicas do terramoto de 1755, em Lisboa. O palácio é composto por quatro salas que se cruzam perpendicularmente e a sua decoração é bastante austera, nos tetos veem-se abóbadas de nervura sustentadas por mísulas, as parede têm grandes janelas que se abrem para os jardins e os rodapés são decorados com azulejos, o que faz com que esta construção seja muito diferente das restantes.

No interior deste palácio comecei por visitar o Grande Salão, que é o salão principal (também conhecido como Sala dos Cofres ou Sala das Festas) cujas paredes são decoradas com 4 grandes telas, com temática alusiva à navegação colombina. Estas obras são do pintor Gustavo Bacarisas e foram encomendadas por Alfonso XVIII para o pavilhão Real da Exposição Ibero-Americana de 1929. Ao lado, a Sala Canterera, a mais pequena de todas as divisões, que desde 2005 tem sido usada para exposições temporárias. Sigo e entro na magnífica Sala da Tapeçaria, assim chamada porque as suas paredes são decoradas por seis tapetes mandados fazer em 1730 e cujo tema é a conquista de Túnis por Calos I. Acabei a minha visita ao Palácio Gótica passando pela Capela construída em 1271 e que originalmente era de invocação a San Clemente. Na atualidade, tem no seu altar um retábulo de Virgen de la Antigua, pintado por Diego de Castillejo, no século XVIII.

Antes de sair do Real Alcázar um desvio para ir ver as cavalariças e visitar a Casa de Contratação. Esta edificação está instalada na Sala do Almirante, foi fundada em 1503 e a sua principal missão era gerir e regular o comércio e o transporte marítimo com os territórios do Novo Mundo, localizados do outro lado do Oceano Atlântico. Era neste edifício que se planeava e aprovava todas as expedições, uma destas foi a grande viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães. Este espaço é ricamente decorado com várias obras de arte, destaco uma que me chamou à atenção um retábulo da “Virgem dos Mareantes” de Alejo Fernández, pintado em 1531, para recordar os feitos alcançados pelos espanhóis da descoberta do Novo Mundo. Atualmente, este edifício é a sede da Delegação do Governo da Andaluzia e por esta razão grande parte das suas áreas estão fechadas ao público.

Saio do Real Alcázar vem-me à cabeça um poema de Luis Cernuda Bidón no qual fala dos jardins deste complexo palaciano e com o qual termino este texto.

«Como leve sonido»

Escondido en los muros
este jardín me brinda
sus ramas y sus aguas
de secreta delicia.

Qué silencio. ¿Es así
el mundo?… Cruz al cielo
desfilando paisajes,
risueño hacia lo lejos.

Tierra indolente. En vano
resplandece el destino.
Junto a las aguas quietas
sueño y pienso que vivo.

Mas el tiempo ya tasa
el poder de esta hora;
madura su medida,
escapa entre sus rosas.

Y el aire fresco vuelve
con la noche cercana,
su tersura olvidando
las ramas y las aguas.

Galeria das fotografias legendadas: Aqui


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