Deixo a imperiosa Sevilha para trás e traço caminho para a província de Málaga para montar acampamento na cidade de Ronda. Esta metrópole faz parte do roteiro das cidades históricas dos Pueblos Blancos, assim chamados porque as suas casas eram todas pintadas de branco para diminuir a absorção do calor. Esta que é considerada uma das cidades mais bonitas desta rota localiza-se a uma altitude de 739 metros acima do nível do mar e está construída na orla do desfiladeiro El Tajo. Este desfiladeiro separa a cidade nova (El Mercadillo), fundada no século XV, da cidade velha (La Ciudad), que data da ocupação muçulmana.
A viagem até Ronda foi super tranquila, fiquei feliz quando a meio caminho vi a cara do tempo mudar, do dia cinzento de Sevilha passava para um lindo dia de sol. Para chegar ao centro de Ronda tentei ir pelo Paseo de los Ingleses. Assim chamado em homenagem aos engenheiros britânicos que construíram o caminho-de-ferro de Algeciras a Ronda. Este passeio percorre a borda do El Tajo e vai até ao Rio Guadalevín, o qual atravessa o centro da cidade de Ronda, mas tive que mudar o plano, uma vez que ao chegar à Alameda del Tajo esta encontrava-se fechada para obras, aproveitei que ali estava e fui espreitar o miradouro deste parque e ainda bem que o fiz porque tem uma vista panorâmica sobre o penhasco de cortar a respiração. No entanto, voltei para trás aproveitando o sol que se fazia sentir para me aquecer um pouco. O ter sido obrigada a mudar de caminho fez com que tivesse a oportunidade de ver a bonita Iglesia de Nuestra Señora de la Merced com a sua torre octogonal de tijolo, cuja construção data do século XVI.

Deixo a igreja para trás e sigo caminho rumo ao centro da cidade. O objetivo era de ir ver a Puente Nueva, o ex-líbris desta cidade, mas a caminho prende-me a atenção o edifício da praça de touros, pertença da Real Maestranza de Ronda, instituição criada pelo Rei Felipe II e fico na indecisão entro ou não entro, visto que não sou adepta de tourada. Sempre que me vem à cabeça a palavra tourada lembra-me o sofrimento dos touros. No entanto, deixei-me tentar pela curiosidade e entrei na praça que é uma das mais antigas de Espanha, tendo sido construída em 1785 (sei que haverão leitores que não vão concordar com a minha decisão, mas naquele momento foi o que me pareceu certo fazer). No interior há um museu taurino associado ao lendário matador Pedro Romero.
Deixo a praça e sigo caminho para o centro de Ronda, para a Puente Nueva, localizada no Paseo de los Romanticos (não é este o nome oficial do passeio, mas é assim chamado pelos habitantes e para mim assenta como uma luva o nome dado ao local). Esta ponte une a cidade nova à cidade velha, atravessando o impressionante desfiladeiro El Tajo de Ronda, o qual foi rasgado por anos de erosão do Rio Guadalevín, levou quatro décadas a ser construída tendo a obra sido finalizada no ano de 1793. Tem mais de 100 metros de altura, o que para a época em que foi edificada foi um feito, a mesma foi erigida em pedra e quem olha para ela pela primeira vez, como foi o meu caso, fica com a sensação que a mesma foi esculpida no próprio penhasco. A ponte é sustentada por dois pequenos arcos laterais e um arco central com 15 metros de altura. Chego à ponte e fico boquiaberta com a monumentalidade desta, que ao vivo ainda é mais bonita do que aquilo que podemos observar em fotografias.

Ainda de olhos esbugalhados de tamanha beleza que havia acabado de contemplar, sigo caminho em direção ao Palácio de Mondragón, mas algo em mim diz-me que pare e contemple todo aquele cenário mais uma vez para ter a certeza do que tinha visto e que não estava a sonhar. Nesta paragem noto que há uma pequena rua que leva à base da ponte e claro está não me fiz rogada para meter os pés neste caminho. Ao descê-lo e ao ter ficado ao nível da pequena cascata que há na base da ponte fez com que ficasse ainda mais encantada com esta. Subo ainda inebriada pela ponte e, então, vou até ao Palácio de Mondragón, também conhecido como o Palácio do Marquês de Villasierra, na atualidade é sede do Museu Municipal desta cidade (este museu está ligado à história da ocupação de Ronda desde a pré-história até à atualidade), mas noutros tempos foi a residência do rei mouro Abbel Mallek, ou Abomelic, filho do rei do Marrocos. Mais tarde os sultões almóadas, da dinastia Nasrid também residiram neste palácio. Os Reis Católicos também moraram neste local, por algum tempo, após a reconquista de Ronda, em 1485. Este edifício combina de forma irrepreensível os estilos mudéjar, gótico e renascentista. No seu interior, os belos pátios de jardins, dos quais se tem uma vista deslumbrante sobre a Serra Grazakema e a Serranía de Ronda.
O dia já caminhava para o seu final, mas ainda queria visitar a Iglesia de Santa Maria la Mayor e os banhos turcos. E assim foi, deixo o palácio, aperto o passo e ao virar da esquina, por assim dizer, a Iglesia de Santa Maria la Mayor, que é o maior templo católico desta cidade. Esta igreja foi mandada construir sobre a antiga mesquita pelos reis católicos, em 1485, mas a sua construção só foi finalizada no século XVII e é dotada duma beleza peculiar, pois nela há uma mistura de estilos. O gótico é o predominante na estrutura principal do edifício, mas após o terramoto de 1580, a igreja viu algumas das suas partes serem reconstruídas em estilo maneirista, sendo o campanário erigido em estilo mudéjar e gótico. O seu interior é dividido em três naves que são separadas por arcos ogivais, o coro alto foi edificado em estilo renascentista. Da antiga mesquita manteve-se conservado o minarete. Ainda no seu interior destaque para o retábulo barroco da Virgen del Mayor Dolor. Resta referir que esta igreja está classificada como Bem de Interesse Cultural desde 1931.

Embrenho-me pelas ruelas de Ronda para ir visitar os banhos turcos, mas pelo caminho prende-me a atenção umas muralhas, paro para as ver são construídas em tijolos e estão muito bem conservadas. Nas imediações vejo umas escadas, as quais subo e que me levam ao cimo das referidas muralhas, lá do alto a vista é espetacular. Ao descer vejo um placard informativo, o qual informa que estas fazem parte dum conjunto defensivo fortificado do tempo da ocupação muçulmana, chamado de Muralhas de la Cijara. Olho para o relógio, 18h 45m, e penso já não chego a tempo de ver os banhos turcos, mas não me deixo desanimar e aperto o passo, desço aquelas escadas irregulares a correr. Os banhos turcos são no final destas, chego e ainda estão abertos, mas já não consigo comprar bilhete a hora da última entrada já tinha passado. No entanto, o senhor da bilheteira foi muito simpático e deixou-me espreitar a zona superior e exterior dos banhos turcos. Acabei o dia a ver o pôr-do-sol no Balcón del Coño, a vista é soberba sobre a paisagem do lado oeste da cidade de Ronda.
Ernest Hemingway passou por esta cidade e sobre ela escreveu qualquer coisa assim: “Ronda é o lugar para onde ir, se você planeja viajar para a Espanha em lua-de-mel ou para estar com uma namorada. Toda a cidade e seus arredores são um cenário romântico.
… Bons passeios, bom vinho, excelente comida, nada para fazer…”, não vim a Ronda em lua-de-mel e nem muito menos para namorar, mas saio desta cidade enamorada pela sua impressionante beleza.
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