Estávamos em véspera do dia de Carnaval, na noite anterior tínhamos ido ver os bailhinhos, que são património cultural da UNESCO, que nos deixaram inspiradas a ir caminhar. Eu, e para espanto dos leitores, estava mais relutante que a Menina da Ilha Rainha em ir caminhar, o dia não me inspirava confiança para sair sequer de casa, mas a Menina da Ilha Rainha meteu-me em sentido e lá fomos nós limpar outra vez os trilhos oficiais da ilha Terceira, já que estávamos em falha de fazer um, o da freguesia da Ribeirinha, em Angra do Heroísmo, que recentemente abriu e digo-vos, desde já, que trilho de bonito este! Consegue ter em si tudo o que deixa o caminhante feliz, inclusive a lama, pois não conheço caminhante que não goste de meter o pé na lama, até pode reclamar, mas o amor à lama é um bem maior.
O trilho começa na Canada do Lameirinho, junto ao Centro Etnográfico da Ribeirinha, no dia em que fomos realizar o percurso o centro estava fechado, mas a curiosidade de o ir visitar era grande, pode ser que duma próxima vez tenhamos mais sorte.
Seguimos caminho sem saber o que nos esperava, seguindo as indicações da sinalização viramos para o Terreiro do Paço e mais à frente começamos a subir uma canada “à poça” assim se chamava. Uma via estreita e inclinada e pensava eu “é preciso ter-se pernas e ser corajoso para se viver numa canada assim inclinada onde um carro não chega à porta para descarregar compras e garrafas de gás”, metida com os meus pensamentos chegamos a umas lindas escadas de lajes de pedra, que nos levaram a encontrar um burro muito curioso que veio ao nosso encontro, passamos o pasto e encontramos, finalmente, a poça que dá nome àquele local. Pensa-se que o nome desta localidade se deva à pequena ribeira que atravessa a freguesia, onde está localizada a Fonte da Furna de Água ou como é chamada pelos seus habitantes a Poça. Esta poça em tempos idos abastecia os habitantes e alimentava dezassete dos dezoito chafarizes aqui existentes, sendo esta freguesia, em tempos idos, considerada muito rica. Esta poça é pequena, mas muito encantadora ali refugiada numa cavidade protegida por pedras como se fosse muito tímida e não se quisesse mostrar. No entanto, a colocação da placa informativa para quem como eu gosta de fotografar vai achar que a mesma devia estar noutro local, pois ali pregada a uma das rochas que protegem a poça tornar-se inestética, o que fez com que andasse às voltas para conseguir uma fotografia interessante e após estar ligeiramente satisfeita com a foto seguimos caminho subindo por entre pastos, onde encontramos três ovelhinhas, que quando nos viram e sem nós termos feito nada fugiram para o pasto vizinho.

A subida levou-nos a sair no Miradouro da Canada da Parreira, aqui começou a chover, mas os deuses do tempo estavam favoráveis à nossa caminhada e uns minutos depois parou de chover. A vista deste miradouro é de cortar a respiração, temos uma panorâmica da Costa Sul da ilha Terceira, à esquerda vemos o ilhéu das Cabras, ao centro a freguesia da Ribeirinha e à direita a cidade de Angra do Heroísmo, com o seu sempre majestoso Monte Brasil. Neste miradouro há uma placa de homenagem aos lavradores pela importância que estes tiveram na história da Ribeirinha. Atravessamos a canada e daqui enveredamos mais uma subida, conforme indicava a sinalização, por entre pequenos carreiros, que iam serpenteando por pastos. Nós, felizes e animadas com o trilho, íamos parando para tirar umas fotos e descansar, porque a subida é boa para as pernas e para ajudar a lama tornava esta ainda mais lenta e cansativa. Este percurso levou-nos a passar pela Poça do Adão, uma nascente que tem reservatório de água e que em outros tempos alimentava todos os terrenos nas redondezas deste prédio e servia para abastecimento de gado bovino e outros. O terreno em volta à poça estava bom para SPA de lama, cada passo dado era sinal de enfiar bem o pé e eu claro muito esperta, não contente por ver a poça de longe, fui chegar-me a ela para a ver bem ficando com os pés enfiados no lamaçal até meio da perna, mas valeu a pena ter-me sujado porque a fotografia saiu bem.
A subida ainda não tinha terminado, pelo que continuamos a seguir a sinalização e a contornar pastos. Só nos detivemos para vermos uma área geológica de afloramentos traquíticos, onde se podem observar, digamos, esculturas rochosas fruto da mão dotada da mãe natureza. Aqui e porque a placa informativa estava colocada a meio caminho só conseguimos encontrar o perfil dum rosto humano e uma das pias, mas penso que vimos as restantes esculturas no início deste terreno. No entanto, mesmo que seja o caso de não termos visto todas as esculturas não fiquei triste por não as ter visto, porque assim só cria em mim mais vontade de voltar e explorar melhor este trajeto.
Prosseguimos a nossa subida e conforme íamos subindo arranjámos novos companheiros, o vento e, com ele, o frio. A subida levou-nos a uma via de asfalto e ao Miradouro da Janela cuja sua localização fica a 410 m acima do nível do mar e tem uma vista ofegante sobre praticamente todo lado sul da Ilha Terceira. E fico a pensar que em dias de céu limpo devem ver-se na linha do horizonte as ilhas de São Jorge e Pico. Pelo que começo logo a idealizar uma fotografia deslumbrante na minha cabeça criando em mim uma vez mais razões para voltar a fazer o trilho. O tempo estava a ficar desagradável, muito frio e vento, decidimos avançar deixamos a janela e o baloiço do miradouro para explorar noutra caminhada e voltamos à rua de asfalto, na qual andamos por largos metros e foi numa estrutura abandonada, que encontramos no cimo da serra, que paramos para almoçar, o tempo estava bastante agreste e, momentaneamente, voltou a chover, acabamos de comer as nossas deliciosas sandes e retomamos a caminhada pela rua de asfalto. Uns metros mais à frente fizemos um pequeno desvio para irmos visitar o Miradouro do Morro, na descida até ao miradouro fico assoberbada com os afloramentos rochosos, chego ao limite mirante e fico de respiração cortada com a vista para o interior da ilha, os pastos separados por muros de pedra, a que os locais chamam manta de retalhos e vemos também os muitos cones vulcânicos existentes. Onde estamos o complexo desmantelado da serra da Ribeirinha talvez se tenha constituído dos restos, possivelmente, do primeiro vulcão que formou a ilha Terceira. Uma curiosidade sobre este miradouro, durante a Segunda Grande Guerra Mundial esta elevação foi ponto de controlo militar. Voltámos ao caminho de asfalto e descemos até à zona de lazer da Ribeirinha, na qual noto a existência de um campo de futebol e penso para mim que de inverno não deve ser fácil jogar-se ali devido ao vento que se faz sentir. Entramos neste espaço, virámos à direita e fomos ao Miradouro do Parque, no qual existe uma moldura que enquadra a paisagem com o sempre maravilhoso Monte Brasil como pano de fundo. Este miradouro localizado em plena Serra da Ribeirinha, daqui temos uma vista fascinante sobre os Ilhéus das Cabras, Ladeira Grande, Ribeirinha e cidade de Angra do Heroísmo. E, uma vez mais, fico a imaginar a vista deste local em dias de céu limpo com as ilhas do Pico e São Jorge na linha do horizonte.

Voltamos ao caminho oficial do trilho, à nossa espera estava muita lama, aqui o caminho voltava a subir, passamos por algumas vacas, que alheias ao vento, faziam a sua vida e nós seguíamos felizes e contentes, só nos detivemos para fazermos um desvio para irmos ver o antigo posto de vigia militar que foi usado durante a Segunda Grande Guerra Mundial, nas suas imediações vimos algumas esculturas naturais e seguimos o trajeto por entre pastos, aqui e acolá, íamos vendo mais afloramentos naturais. Esta zona tem uma paisagem que parece não pertencer a este planeta, uma vez que estas obras de arte da mãe natureza são qualquer coisa de fenomenal e nós íamos parando para apreciar todas elas, algumas pareciam pássaros, pias, um lindo crocodilo, inscrições e marcas de corte que me suscitaram dúvidas se teriam sido mesmo feitas pela mãe natureza pela forma quase perfeita dum retângulo que tinham. A esta altura já nós estávamos a descer para o centro da Ribeirinha, mas antes de lá chegarmos ainda fizemos mais dois desvios para vermos mais esculturas naturais. No primeiro, vimos uma cabeça de dragão, que vos juro que, até ao dia de hoje, não consegui ver onde está a dita cabeça do dragão, olho para as fotos que tirei e não vejo, mas já me dei o benefício da dúvida. Se calhar o sol a incidir sobre a rocha crie sombras que ajudem a realçar a forma da cabeça do dragão, vimos várias pias, figuras humanas e animais. Deixamos, momentaneamente, os pastos para atravessar a rua de asfalto e entrar noutro pasto, caminhamos um pouco e vimos logo uma pia, iniciamos uma descida e. então, as esculturas mudam de forma, já não parecem ser tão naturais, vimos pequenas estruturas de pedras empilhadas fazendo lembrar algumas estruturas arquitetónicas usadas em alguns países da Europa para marcarem caminhos, os chamados Cairns, e fico a pensar “será que em tempos idos os primeiros habitantes desta ilha fizeram estas marcas por forma a marcarem os percursos que iam dar à serra para não se perderem?” Hummm, talvez nunca venhamos a saber o intuito daquelas pedras empilhadas, mas talvez seja melhor assim para criar naquele local uma certa atmosfera de misticismo e curiosidade. Nas imediações destas marcas, uma pedra que parecia uma cadeira ou um trono e junto a esta uma escultura que me pareceu um animal místico o Nessy do Lago Ness, nesta escultura há umas marcas de corte, que há semelhanças das primeiras que referir, não me pareceram assim tão naturais pela sua forma retangular tão perfeita. Deixo-me ali ficar sentada feita rainha na pedra cadeira ou trono metida com os meus pensamentos sobre tudo o que havia visto ao longo desta caminhada, aproveito para ir absorvendo o momento e apreciar a vista da manta de retalhos e o ilhéu das cabras a coroar o mar. Após esta paragem seguimos, o sol havia, no entretanto, decidido abrilhantar o nosso caminho, no entanto, estava com pressa para ir descansar. Antes de voltarmos ao Caminho Rural do Recanto, mais uma paragem para vermos a tão procurada pedra furada, que não desilude, é mesmo muito bonita, ao redor desta algumas pedras com inscrições e pias. Ficamos atónitas com todos estes afloramentos rochosos, abismalmente bonitos, uns parecendo mesmo naturais, outros deixaram em mim a dúvida se eram mesmo naturais. Esta incerteza talvez nunca venha a ser desfeita e há coisas que devem permanecer um mistério para aguçar a curiosidade do ser humano. Voltamos ao caminho rural e prosseguimos rumo ao centro da Ribeirinha pelo trajeto ainda paramos em mais dois miradouros, um deles ainda em construção para ser inaugurado em breve. Digo-vos quem quiser ver miradouros à Ribeirinha deve vir porque todos os que vi neste trilho a vista era qualquer coisa de maravilhosa.
Após este último miradouro chegamos ao Nicho de Nossa Senhora e a partir daqui iniciamos a nossa descida ziguezagueando pelas ruas estreitas da freguesia. No alto passamos pelas primeiras redes sociais, ou seja, as pias, onde antigamente as senhoras lavavam a sua roupa e ainda passamos por um triatro do Espírito Santo que era muito colorido, na fachada tinha uma cartela onde estava gravada a data de 1911. As cores tornavam o triatro alegre, mas apesar de ser colorido e de não ter mudado de lugar só reparei nele no regresso. O percurso de volta ao carro levou-nos a passar pela sociedade da freguesia, a qual por ser Carnaval já estava cheia, não entramos, mas por certo se tivéssemos entrado haveria lugar para nós.

E na alegria do Carnaval com o tempo a colaborar lá fizemos o trilho novo da Pedra Furada, na serra da Ribeirinha, que ficou no meu top 10. É muito bonito e está bem conseguido. Pena mesmo as placas informativas estarem colocada da forma como estão, para mim não faz sentido estarem colocadas a meio caminho perdendo quem faz o trajeto alguns pontos de interesse, porque passa por eles e não se apercebe que eles lá estão. Um bem-haja e boas caminhadas!
Galeria das fotografias legendadas: Em breve