Um dia após o feriado nacional da Implementação da República aterrávamos na terra dos mouros, a capital de Portugal, Lisboa. Estávamos de passagem rumo à terra dos Cavaleiros de Malta para uns merecidos dias de férias. O sol agraciava a nossa chegada à metrópole estendendo os seus raios sobre todos, deixando-nos mais alegres e tranquilos. Nós começávamos as férias cheias de aventuras e com vontade de querer conhecer um pouco mais do nosso país. O cantinho escolhido levou-nos a atravessar a Ponte 25 de Abril e a rumar à margem sul para irmos meter os pés no trilho PR2 SSB – Cabo Espichel. Este trilho está integrado na Rede de Percursos Pedestres do Parque Natural da Arrábida e passa pelos monumentos naturais da Pedra Mua e do Lagosteiro, locais por onde dinossauros passearam.
A nossa caminhada iniciou-se junto ao Farol do Cabo Espichel. Este farol foi mandado construir ao abrigo do alvará Pombalino de 1758, o qual determina a construção de vários faróis para colmatar a falta de iluminação da costa portuguesa para auxiliar a navegação. A nossa costa era conhecida entre os navegadores estrangeiros com a “costa negra”. Assim, no ano de 1790 o farol é inaugurado fazendo dele um dos mais antigos de Portugal ainda em funcionamento.
Antes de avançarmos mais na nossa caminhada deixem que vos falemos um pouco sobre o Parque Natural da Arrábida, no qual está inserido o promontório do Cabo Espichel, local escolhido por nós para irmos trilhar. Este parque ocupa uma área de 17 mil hectares dos quais 5 mil são marinhos, localiza-se próximo de Lisboa e do Estuário do Sado e inclui as serras da Arrábida, São Luís, Louro e São Francisco e integra a Rede Europeia de Conservação da Natureza (Rede Natura 2000).
Uma placa informativa relembra-nos que “A Arrábida a todos acolhe. Este património também é seu. Proteja-o!”, pelo que fomos caminhar cientes que estávamos a pisar terreno especial e que era nossa obrigação deixar tudo como tínhamos encontrado para que todos que venham a seguir a nós possam também usufruir do espaço e desfrutar das paisagens soberbas que o trilho oferece. E foi com este pensamento que saímos da sombra que a torre do farol nos oferecia e avançamos para o sol abrasador que se fazia sentir neste dia.
Tiro umas fotos, mas a luz não é a melhor, o sol estava muito alto tornando as sombras muito duras. No entanto, tiro umas fotos na mesma para quando a memória me falhar ter estes registos para me recordar da nossa passagem por este local. A Menina da Ilha Rainha incentiva-me a que exploremos os arredores do farol antes de avançarmos para a próxima paragem e, digo-vos, ainda bem que me deixei levar pelas suas palavras, porque confirmei, o que já há muito sabia, que o nosso país tem paisagens de cortar a respiração e de nos deixar abismadas com a sua beleza, o Cabo Espichel é um excelente exemplo.

Após as explorações voltamos ao farol e então sim avançamos pelo caminho que esventra a paisagem. No entretanto, passaram alguns carros que levantaram poeira para termos algum tipo de protetor solar, sendo este um caminho que pertence a um trilho oficial penso que os carros deveriam passar a velocidade mais moderada, uma vez que por aqui circulam muitos caminhantes. Não nos deixamos intimidar e prosseguirmos caminho até que alcançamos o lindíssimo Santuário. É impossível ficar indiferente perante o complexo devido à sua grandiosidade. O santuário é ladeado por dois braços que formam um U e ao centro desta estrutura há um enorme pátio. Os braços do U são as antigas hospedeiras para peregrinos, constituídas por dois pisos. Infelizmente, na atualidade, estão abandonadas. Na extremidade do pátio pode ver-se um cruzeiro.
Paro a ler o placar informativo que dizia o seguinte: “No local onde as várias tonalidades do céu convergem nas cores do oceano, o homem ergueu, junto ao abismo, o Santuário do Cabo Espichel. Aqui dá-se, em toda a sua plenitude, a fusão entre o humano e o sagrado, num calendário cíclico de romaria.”. O culto é antigo e é dedicado à Nossa Senhora do Cabo, tendo começado no século XIII. Ao longo dos séculos, este culto tomou a forma de uma romaria que acolheu dezenas de círios (romeiros) vindos, também, da outra margem do rio Tejo.
A nova igreja dedicada a Nossa Senhora do Cabo foi construída entre 1701 e 1707 por empenho do D. Pedro II, com uma arquitetura de estilo chão e alguns traços de barroco de nave única. Esta surge imponente, revelando a importância do Culto Mariano que aqui tem lugar. De referir que no século XVIII, o interior foi melhorado com a criação de dez altares laterais pelos romeiros que ali chegavam e ainda neste século datam as pinturas dedicadas à Virgem. No teto abobado vemos a Assunção de Nossa Senhora, pintado a fresco pela mão de Lourenço da Cunha, em 1740. Este pintor foi considerado, no seu tempo, o melhor pintor português do género de arquitetura e perspectiva, com uma nova conceção do espaço cénico e decorativo. Este teto é a única obra do pintor que sobreviveu ao terramoto do 1755. Nas paredes revestidas a Brecha da Arrábida vemos cenas da vida de Nossa Senhora.
No final do século XVIII foram retocados os altares dos círios, construindo-se também a tribuna real junto ao altar-mor.
Neste dia tivemos sorte, rezava-se a missa na igreja pelo que aproveitamos para entrar e apreciar o seu interior. Fiquei impressionada. O ambiente é medieval e escuro, uma vez que devido ao estilo de construção não há muitas aberturas nas paredes para o sol a iluminar, mas a pouca luz que ali entra é suficiente para deixar quem a visita de boca aberta e sem querer sair para poder apreciar todos os pormenores dos vários altares e as pinturas. Ainda em modo não querer ir embora, luto comigo mesma e obrigo-me a sair para continuar a caminhada. O dia já ia longo e o sol já mostrava sinais que não tardaria iria querer meter-se na cama para também descansar e eu ainda queria ir ver as pegadas dos dinossauros, já que desde a minha infância sempre fui apaixonada por tudo o que está relacionado com estes animais. Fascina-me o facto de já terem existido no planeta criaturas assim gigantescas, muitas vezes na minha cabeça faço uma viagem no tempo e imagino como seria viver no tempo jurássico.

Por mim, após sair da igreja divinal, tinha seguido direto para as pegadas, mas a Menina da Ilha Rainha estava com vontade de andar e quis visitar o resto do complexo do santuário, pelo que a segui e permiti-me viver a experiência completa. Encarnei a personagem de ser uma das milhares de romeiras que já rumaram a este local e espantei-me com a beleza natural que pode ser vista. Nas traseiras do exterior da igreja há uma vista para lá de fenomenal, vemos a costa e o oceano Atlântico que parece não ter fim. E se há uns minutos queria ir direto para a pegadas, após ver este cenário já não me apetecia ir ver as pegadas queria ali ficar com os olhos presos àquele azul, com os raios de sol a acariciar suavemente a minha pele, o som do mar que ajudava a abrandar e o cheiro a maresia chegava ao meu interior a cada inspirar meu. Parei deixei-me ali ficar puxei da máquina, registei aquela paisagem e quando dei por mim estava ali sozinha, a Menina da Ilha Rainha já me tinha deixado largada à minha sorte, mas não me deixei intimidar pela imensidão do local, porque a via era só uma e após estar satisfeita com as fotos segui caminho para alcançar a minha companheira que avançava caminho à velocidade da luz (risos).
Deste ponto um pouco mais à frente vemos o que resta da antiga Fortificação de Nossa Senhora do Cabo que tem vindo a desaparecer devido às derrocadas provocadas pela erosão marinha. A localização estratégica do Cabo Espichel levou a que se construísse um forte para defesa da costa após a restauração da independência de Portugal, em 1640. A sua construção começou no ano de 1672, durante a regência do príncipe D. Pedro. Em meados do século XIX este forte foi abandonado. Prossigo rumo à encantadora Ermida de Memória que é o monumento mais antigo do conjunto arquitetónico do santuário e que é datado do século XV. É um edifício de planta quadrangular e paredes pouco elevadas, o templo é coroado por uma invulgar cúpula contracurvada, em forma de bolbo. Pelo que li, posteriormente à minha visita, no cimo da cúpula havia um pináculo em forma de bola que desapareceu nos anos 90 do século passado. No interior vemos azulejos setecentistas azuis e brancos, os quais narram a lenda da aparição de Nossa Senhora do Cabo registada desde 1410 e a devoção dos peregrinos, que a partir do século XV rumavam ao Cabo Espichel.
De referir que a ermida foi construída precisamente no local onde, segundo reza a lenda, terá sido encontrada a imagem de Nossa Senhora. Esta lenda relata o sonho de dois idosos, que viram a Santa ser carregada por uma mula branca subindo a falésia e que deixou o trilho marcado com os seus cascos. Mais tarde, este caminho de pegadas, referido na lenda, foi identificado como sendo de dinossauros saurópodes do Jurássico Superior. Mais à frente a nossa caminhada vai levar-nos a ver estas pegadas, mas de muito longe.
Não havia muito mais horas de luz de sol e se quiséssemos ir visitar as pegadas teríamos de nos apressar e assim foi. Pelo caminho uma paragem rápida para ver a Casa da Ópera ou o que resta dela, construída em 1770 e destinada a prover animação cultural, sobretudo teatro, para os romeiros e festeiros. Foi muito utilizada em espetáculos promovidos pela família real, que se mantinha no Santuário durante todo o período de romaria. Ainda vimos por fora a Casa da Água, é neste edifício onde termina o aqueduto que abastecia o santuário. Foi construída em 1770, a mando rei D. José I, depois de visitar o Santuário durante uma romaria do círio da Ajuda, ao qual pertencia. Em anexo à edificação há uma horta murada que servia para abastecer os peregrinos. Esta construção tem a planta em forma hexagonal, coberta por cúpula em meia-laranja rematada por lanternim, cimalha envolvente, cunhais apilastrados marcando as seis faces. É antecedida por escadaria de vários lanços.
Contornamos a Casa da Água e seguindo as marcações do trilho. Começámos a caminhar junto ao aqueduto que, segundo leituras posteriores, trazia a água desde a Azóia, a aldeia mais próxima, por uma extensão de, aproximadamente, 2,5 km. Mais à frente viramos à esquerda a começamos a descer rumo às pegadas, o caminho até lá, ou pelo menos grande parte dele é feito de pequenas pedras pomes soltas, em alguns sítios também há areia da pedra pomes e algumas fendas pelo que é preciso ter cuidado redobrado na descida e na subida. Eu mesmo preocupada com o terreno do caminho comecei a ficar entusiasmada por estar a caminhar num local onde já haviam passeado dinossauros. Esta via é sempre acompanhada por vegetação, onde eu destaco o tojo, que em São Miguel, Açores chamamos de “pica ratos”. Esta planta nunca passa despercebida porque se chegarmos mais pertinho dela, tem uns espinhos que picam e que te lembram que deves ficar longe. Ela é facilmente conhecida pela sua flor amarela. Ao chegar ao miradouro da Pedra Mua, o entusiasmo passou-me, as pegadas que estão associadas à lenda de Nossa Senhora do Cabo Espichel ficam na encosta em frente, que fica a largos metros de distância e nem sequer vi no local uns binóculos para ajudar a quem ali se desloca a ver melhor as pegadas. Fiquei triste confesso, mas não desanimei e para afogar a tristeza fui ler a placa informativa que era bastante completa. Fiquei a saber que são lajes do Jurássico Superior formadas há cerca de 150 a 140 milhões de anos, nas quais podem ser identificados vários trilhos de saurópodes (quadrúpedes herbívoros) e terópodes (carnívoros bípedes). Estes icnofósseis vestígios de atividade biológica são um testemunho importante sobre o comportamento gregário dos saurópodes, mostra que se deslocavam em manada, mas só de binóculos as pegadas são visíveis.
Não desanimo porque ainda faltava ir visitar a Jazida dos Lagosteiros. Assim, prossigo a descida e ao chegar ao miradouro passo por umas escadas e à minha frente as pegadas. Estas conseguem-se ver melhor, fico mais animada, tinha valido a pena ter ido lá baixo e ainda fiquei a saber que a Jazida dos Lagosteiros terá sido formada há cerca de 130 a 120 milhões de anos num terreno alagadiço e pantanoso que veio a consolidar-se para formar as rochas calcárias que hoje apresentam os moldes das pegadas de dinossauros. Nesta jazida vemos as pegadas de um grande herbívoro quadrúpede e outras pistas de saurópodes mais isoladas. De referir que é a única jazida de icnofósseis datada do Cretácico Inferior em Portugal.
Tanto a Pedra Mua como a Jazida dos Lagosteiros estão classificadas como Monumento Natural pelo Decreto-lei n.º 20/97 de 7 de maio.

E nisto o sol estava quase, quase a ir dormir pelo que encetamos caminho de volta à estrada para regressarmos à “nossa casa” no centro de Lisboa. Neste dia e dada a hora quase não regressávamos a casa, é muito complicado arranjar um táxi que queira ir ao Cabo Espichel àquela hora. Apesar de haver a Ponte Vasco da Gama, a maioria dos condutores opta por atravessar o Tejo pela Ponte 25 de Abril só pelo simples facto de ser mais perto e este gesto torna o trânsito caótico para quem tem de atravessar a ponte em certa horas do dia, fazendo que ninguém queira ir à outra margem, a não ser que tenha mesmo que ser. Nós acabamos por ser bafejadas pela sorte, um taxista que veio deixar uns turistas à nossa margem espreitou a aplicação para ver se o regresso podia ser rentável ao ver o nosso pedido fez o desvio e assim juntou o útil ao agradável teve companhia para ir falando enquanto estava nas longas filas de espera e rentabilizou a volta! Um bem-haja e boas caminhadas!