O calendário marcava 8 de maio de 2026 e, finalmente, chegava o dia para ir explorar um dos meus maiores medos, as vacas! Era hora de ir aprender mais sobre como se produz leite biológico. Saio da cama e parecia uma miúda em manhã de Natal, cheia de energia, alegria e muito entusiasmada. Era dia de ir aprofundar os meus conhecimentos sobre a produção de leite. O dia não estava radioso, mas não chovia e convidava a atividades fora de porta, pelo que após termos acabado a rotina doméstica arrancamos rumo ao Belo Jardim. É aqui que começa a Rota do Leite.

Nos dias que correm, e muito bem, a procura por produtos biológicos está cada vez mais em voga, sendo estes muito procurados pelas pessoas, que a cada dia que passa anseiam por voltar às origens e reconectar-se com a natureza de forma a proteger o planeta Terra e o nosso lindo planeta azul agradece o processo de reeducação que a sociedade está a atravessar. Nós curiosas com a natureza e sempre com vontade de aprender mais fomos visitar a Exploração Biológica Anselmo Pires para acompanhar parte do dia de quem vive e dedica a sua vida às vacas e é lavrador por profissão, poderíamos ter ido a outra exploração, mas esta exploração foi a que nos fez o chamamento e lá fomos nós!
Às 11 horas iniciávamos a nossa aula sobre a produção de leite biológico conhecendo os bezerros, os quais tivemos a oportunidade de dar o biberão. Enquanto os alimentávamos, o Senhor Anselmo explicava que naquele pasto os animais tinham idades variadas, haviam diferentes raças misturadas e que criava vacas de leite e de carne, entre as quais existiam animais das raças de carne Angus e Jersey e de leite Holstein Frísia, ainda referiu que quando bem tratadas estas últimas poderiam viver até 12 anos, enquanto que as primeiras vivem somente 2 anos. Conhecemos a Coração e a gulosa Meia Lua que apesar de já não ter idade para comer de biberão agarrou-se a um e só o largou quando já não tinha leite, mas via-se que já tinha perdido a habilidade de chuchar. O Senhor Anselmo também disse que a partir dos 2 meses os bezerros começavam a receber para além do biberão erva para começar o desmame. Após esta experiência fantástica de dar biberão à Meia Lua que puxava com força o biberão, era preciso força de braços para a alimentar, estava na hora de deixar os lindos e dóceis bezerros e de dar continuidade à rota. Fomos até à zona do Pico das Favas, é aqui que Exploração Biológica Anselmo Pires tem os seus pastos, onde as vacas adultas pastam livremente e é aqui que estes animais são ordenhos duas vezes por dia. Quando chegamos às vacas, estas já haviam sido ordenhadas pela fresca da manhã, mas a Briosa havia ficado por ordenhar para nós termos a experiência de tirar o leite manualmente. Saímos do carro e caminhamos por uma canada de terra batida e mais à frente entramos num pasto. As vacas ao verem o dono chegam-se para perto dele, é engraçado que todas elas têm nome e o senhor Anselmo sabe identificar cada uma delas, diz-nos que a sua exploração é pequena só tem 35 vacas e que para ele e para o ajudante já é trabalho quanto baste, porque as vacas ao contrário daquilo que se pensa não é só estarem no pasto, então quando estão grávidas e perto de terem os bezerros é preciso vigiar constantemente, porque há vacas que perdem a vida ao darem à luz sem terem auxílio. No entretanto, o sol sentindo-se sozinho no céu começou a chamar as amigas nuvens para a festa, parecia que também os deuses do tempo não queriam que tivéssemos a experiência completa e que ninguém iria ordenhar a Briosa que nunca mais largou o grupo desde que entramos no pasto. Do nada veio uma chuvada, mas não nos demovemos, íamos ordenhar a Briosa quisessem ou não os deuses! Abrigamo-nos e esperamos que a ira dos deuses passasse. Quem não nos largava era a Briosa que parecia ansiosa e alegre por ser ordenhada e o senhor Anselmo aproveitava para passar informação sobre as suas vacas dizendo que estas eram alimentadas, maioritariamente, com erva de pasto. No inverno como não há muita erva no pasto, elas comem erva de rolo e a complementar a sua nutrição comem um pouco de ração para obterem os nutrientes que a erva não fornece e os animais necessitam para completar a sua alimentação. Também informou-nos que, diariamente, cada vaca produz entre 10 a 15 litros de leite na sua exploração, no entanto, disse-nos que há explorações com animais que produzem muito mais leite por dia. Enquanto falava a Chinelo, outra vaca, espreitava no muro, o Senhor Anselmo chamou-a para que ela se juntasse ao grupo, mas ela fingia que não o ouvia no meio da boa disposição. Sim, porque o senhor Anselmo é muito bom anfitrião sabe do que fala, muito paciente, conhecedor e gosta de partilhar este conhecimento, a parte que mais encanta é o respeito que ele tem pelos animais e isso vê-se na reação que os animais têm quando o veem, vêm logo a correr alegres na sua direção. Entretanto, os deuses deram uma trégua e lá fomos nós guiados pela Briosa, que alegre nos seus passos, nos levou até à zona da ordenha. Passei muito próximo das vacas e pela primeira vez na minha vida não senti medo delas, pelo contrário senti-me bastante relaxada e até lhe fiz umas festinhas, isto só para terem noção do meu nível de descontração.

Chegamos à zona onde fazem a ordenha e a Briosa meteu-se em posição, o senhor Anselmo explica como se faz o movimento para se ordenhar e eu tímida disse à Menina da Ilha Rainha que fosse primeiro, porque precisava de recolher fotos para este texto. Antes de começarmos, havíamos deixado um casal e uma criança vivenciarem primeiro este tipo de experiência e confesso que criança de todos nós foi a que apanhou logo o jeito para ordenhar, só lhe faltando apenas um pouco mais de força, mas, apesar disto, ainda conseguiu tirar leite. Eu, como é óbvio, fui a mais desajeitada, não é fácil, é preciso agarrar a teta com jeito e fazer força para o leite sair. Fiquei com medo de puxar demasiado e magoar o animal, por isso não consegui tirar muito leite. O leite acabado de tirar da vaca em nada é igual ao leite que já se compra empacotado nas superfícies comerciais, o primeiro além de ser morno, é bem mais doce e a sua cor também é diferente sendo de um tom de amarelo muito claro. É mesmo muito bom.
Quando estávamos mesmo a acabar, os deuses do tempo invejosos voltaram à carga e mandaram mais chuva, lá corremos até ao carro.
Pensava que a visita tinha acabado, mas eis que o senhor Anselmo ainda tinha mais uma surpresa para nós, fizemos um piquenique cheio de iguarias típicas da Terceira com direito a comer alcatra. Foi uma forma muito agradável de se acabar a visita. Comer alcatra e ter uma conversa bastante salutar com o nosso anfitrião sobre os mais diversos assuntos.

E vocês conhecem as voltas que o leite dá até chegar à vossa casa? Ainda não? Do que estão à espera? Deixo-vos a dica, se passarem pela ilha Terceira marquem e façam a Rota do Leite com a Exploração Biológica Anselmo Pires, não se vão arrepender é uma experiência que alegra miúdos e graúdos. Foi visível na expressão da criança que foi no grupo a sua alegria e espanto quando acabou a visita. É uma experiência que nos marca pela positiva, não só porque o saber não ocupa lugar, mas porque nos ajuda a perceber o percurso que o leite faz até chegar às nossas mesas. Este cumpre um ciclo que vai desde a maternidade da vaca até começarem a produzir leite. De referir que a vaca só começa a produzir leite após ter o primeiro filhote e só depois o leite começa a ser tirado para produzir aquele que chega às superfícies comerciais e que nós compramos e consumimos! Claro que esta é uma explicação muito sucinta da Rota do Leite para vos deixar curiosos e irem aprender mais com o Senhor Anselmo Pires. Um bem-haja e boas caminhadas, neste caso boas Rotas do Leite!
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