O Passeio Panorâmico de Angra do Heroísmo

Última viagem, deste ano da graça de 2024, levou-me à ilha Terceira, decorria o mês de dezembro e nem parecia que estávamos em pleno inverno, o sol coroava o céu fazendo com que o dia e a cidade de Angra do Heroísmo irradiassem muita alegria.

Após fazer algumas coisas por casa, decido embrenhar-me pelas entranhas costeiras da pitoresca cidade de Angra do Heroísmo. Saio de casa e só não digo que vou à descoberta porque já fiz várias explorações pelas ruas desta cidade, mas hoje e pela primeira vez iria tentar fazer o passeio panorâmico todo de seguida, pelo menos saí com esta ideia, agora concretizar é que é sempre mais complicado, já que a meio do caminho arranjo sempre forma de desvirtuar a caminhada (risos). Sigo rumo ao Pátio da Alfândega, é neste pátio que se localiza a Alfândega e por se localizar numa zona alta em relação ao cais, durante os séculos XVI e XVII, favorecia muito os comerciantes já que estes podiam ver dali as mercadorias que iam chegando à ilha. Este local, na segunda metade do século XVIII e por ordem do Capitão-General, recebeu obras que o remodelaram, foi nesta altura que recebeu uma escadaria e portas. Tais obras tinham o sentido de dignificar a entrada da então capital dos Açores. O atual aspeto desta área data dos finais do século XX, foi uma obra do município e é uma reinterpretação do pátio do século XVIII, que no entretanto havia desaparecido, o desenho atual desta área ficou a cargo dos arquitetos Miguel Cunha e José Parreira, mas antes de chegar ao pátio passo por um dos ex-libris da cidade de Angra e falo da Igreja da Misericórdia. Este templo, cuja invocação é ao Senhor Santo Cristo, pertence à Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo e foi construído no século XVIII sobre a antiga Ermida de Santo Espírito. De referir que esta edificação está classificada como Monumento Nacional por Decreto n.º 95/78 de 12 de setembro e mais tarde também foi incluída no conjunto classificado da Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo por Decreto Legislativo Regional n.º 29/2004/A, de 24 de Agosto.

Portão Parque Municipal do Relvão

Apesar de gostar ter ficado mais um pouco a apreciar todos os pormenores desta imponente igreja, obrigo-me a seguir caminho, passo pela estátua de Vasco da Gama, contorno o edifício da Alfândega e sigo para a estrada Gaspar Corte-Real, que me leva a passar pela Prainha e mais à frente pelo Arco do Relvão, pelo menos é este o nome que indica uma placa. Ainda há quem chame este arco de Porta da Praia, mas segundo me foi dito a Porta da Prata situava-se no fim da Rua de São João, entre a Alfândega e o hotel Beira Mar. O primeiro nome era Portão do Portinho Novo e foi aberto quando fizeram as obras das estradas que ligam o Cais da Figueirinha ao Porto das Pipas, nos meados do século XIX.

Num ápice estou no Cais da Figueirinha, que neste dia e talvez devido ao sol que se fazia sentir vi algumas pessoas a tomarem banhos do mar, na minha cabeça a água estava bem fria, mas a realidade é que não devia estar tão fria assim, senão as pessoas não estariam imersas nela. Arrepiada de ver aquelas pessoas no mar e após ler um placard informativo sobre um barco afundado que se encontra ao largo deste cais, sigo caminho rumo ao Relvão, subindo a Rua do Conselheiro José Silvestre Ribeiro e, num instante, já me encontro no Relvão. No ar, um cheiro que muito me agrada, o fresco aroma da erva acabada de ser cortada, passo pela estátua de homenagem a Gungunhana, o último imperador do Império de Gaza, que na atualidade é Moçambique. Este líder chegou a Angra do Heroísmo exilado e foi nesta cidade que morreu em 1906. Deixo o parque e parto numa missão de subir até à Cruzinha, um o monumento de betão armado encimado por uma Cruz de Cristo, localizado no Pico das Cruzinhas que comemora o V Centenário do Descobrimento dos Açores (1432-1932). Assim, viro à esquerda e começo a subir rumo à Fortaleza de São João Baptista, um minuto mais tarde estava eu a entrar nesta que é a maior fortaleza construída nos tempos da ocupação espanhola e fazendo caminho rumo ao destino final. Se me perguntarem se fiz o trilho oficial digo-vos que não, não fiz o trilho oficial meti-me por caminhos avessos, mas que me levavam ao Pico das Cruzinhas. Deste pico, cuja altitude é 168 metros, temos uma vista panorâmica sobre toda a costa sul da ilha. Este caminho rumo ao miradouro levou-me a passar pela zona onde existem gaiolas com várias espécies de aves e pela estátua de Dom Afonso VI. Chego à Cruzinha e após apreciar ou pelo menos tentar apreciar a vista que a vegetação alta deixa ver, começo a talhar caminho para baixo, passando pela caldeira do Monte Brasil, onde estavam militares a realizarem exercícios. Antes de sair da fortaleza, faço um desvio até ao Caminho das Beladonas, sempre que venho ao Monte Brasil gosto de voltar a este local, que está repleto de muito boas memórias e aproveito para ver o “hipogeu superior”. Nesta manhã, a complementar e a embelezar, ainda mais, o local no horizonte estão São Jorge e Pico.

Monte Brasil

Após ficar sentada por algum tempo apreciando e absorvendo a paz que se fazia sentir neste sítio, levanto-me e rumo em direção ao caminho de saída da fortaleza. Já fora da fortificação, viro para a esquerda, para a zona das Bocas do Lobo que existem na base da mesma, percorro este trajeto e faço mais um desvio para ir ver a Porta da Traição, de regresso às Bocas do Lobo, passo por baixo da ponte da Portão das Armas e subo nas imediações para passar em frente ao portão para voltar ao caminho de descida da fortaleza que me leva ao Largo da Boa Nova, aqui paro para ver o Chafariz da Boa Nova e o Tanque do Azeite. Segundo um azulejo que existe nesta zona, o Chafariz e o tanque foram mandados construir pela Fazenda Pública, mas não se sabe ao certo o ano da sua edificação. No entanto, sabe-se que já existiam no início do século XVII. A caminhada prosseguiu passando pelo monumento da Glorieta à Rendição do Castelo. Este monumento foi inaugurado a 21 de julho de 1957. A sua construção partiu da iniciativa do Coronel João Miguel Rocha de Abreu, antigo comandante do então BI17 e foi uma oferta do Ministro da Defesa Nacional ao batalhão angrense. Invoca a memória do soldado terceirense José Dias. Este soldado pertencia ao batalhão que fez cerco à fortaleza de São João Batista, último reduto onde estavam sitiados os espanhóis. Numa das investidas feitas pelos espanhóis ao cerco José Dias foi capturado e enquanto era levado para a fortaleza foi forçado pelos espanhóis a dar vivas ao Rei Filipe III de Castela, mas ele acalmou sempre D. João IV como rei de Portugal e seu rei. Os espanhóis mataram-no na ladeira que sobe para a entrada principal da fortaleza. A Glorieta à Rendição do Castelo foi construída no suposto local onde José Dias tombou, é numa homenagem a este e a todos quantos perderam a vida para libertar a Terceira até ao último reduto do inimigo espanhol. Neste local encontro uma bifurcação e decido seguir pela direita, o que me leva a passar junto ao bosque dos dragoeiros, mais à frente o forno da cal. Este forno da cal, com o formato de uma pirâmide truncada de sete metros de altura e paredes espessas para aguentar as altas temperaturas da cozedura da cal, é um dos quatro que existiram até meados do século XX a laborar em Angra do Heroísmo. Paro para fotografar este monumento e sigo caminho para a Zona Balnear do Fanal, onde desço, percorrendo o passeio de cimento e decido ir até à Zona Balnear da Silveira, em ambas as zonas balneares vejo corajosos banhistas a aproveitarem o sol que se fazia sentir para dar umas braçadas. 

A vinda à Silveira é um extra ao passeio panorâmico de Angra do Heroísmo, pelo que volto para trás, mas desta feita faço o caminho por cima, pela Rua Diogo de Teives, chego à Rotunda dos Portões de São Pedro e viro para a Rua de São Pedro, onde passo pela igreja de São Pedro. No final desta rua chego à Rua da Mãe de Deus, a qual subo um pouco e viro à direita para a Rua da Bôa Vista, mais à frente sigo pela Rua Pau São. No cimo desta, chego à Rua Conde da Praia da Victória, onde passo pelo Império do Divino Espírito Santo, que tem no seu frontispício uma cartela com a data 1871. Esta rua leva-me à Ladeira de Santa Luzia, a qual decido descer em direção à Rua de Cima de Santa Luzia que percorro até chegar à Rua da Miragaia, ao chegar a um entroncamento viro à direita para a Rua da Pereira. Nesta rua passo junto à casa onde nasceu o “pintor europeu das ilhas”, assim o chamou Vitorino Nemésio e falo claro de António Dacosta (1914-1990). No fim desta rua chego ao Largo do Castelo de São Luís e ao meu próximo destino ao Alto da Memória. Foi neste local que o Capitão Donatário João Corte Real mandou construído, em 1474, o Castelo dos Moinhos, a primeira fortificação de Angra do Heroísmo. Atualmente, nesta zona existe um obelisco erigido no século XIX, em homenagem à Passagem de Dom Pedro IV de Portugal pela Terceira no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834). A primeira pedra colocada para a construção deste monumento foi uma das que o rei havia pisado quando desembarcou em 1832, o resto da construção foi feita com as pedras do antigo castelo dos Moinhos, erigido em 1856, em homenagem à passagem de D. Pedro IV pela ilha, no período da Guerra Civil Portuguesa. De referir que este obelisco não ficou impune ao terramoto de 1980 que provocou grandes estragos nas ilhas do grupo central, mais foi reconstruído e a 25 de abril de 1985 a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo reinaugurava o monumento. Deste sítio temos uma vista sobre a cidade de Angra, a sua baía e o Monte Brasil, assim como da Serra do Morião e a Serra da Ribeirinha.

Alto da Memória

Prossigo caminho, começo a descer umas escadas, passo pelo Chafariz do Alto da Memória e continuo a descer escadas que me levam ao Jardim Duque da Terceira. Este jardim, que é quase um completo Jardim Botânico, foi fundado em 1882, um aprazível espaço verde no coração da fantástica cidade Património da Humanidade. O local está repartido por patamares, decorados com pedras de lava que contrastam com a vivacidade das cores das plantas tropicais que aqui existem. As escadas levam-me a passar pelo “Tanque do Preto” (um antigo tanque de rega) e pelo coreto. Saio para a Rua do Marquês e passo pela Praça Velha. Esta praça que já existe desde o século XV reflete a recuperação do conceito da Antiguidade Clássica do Fórum.

O passeio aproximava-se do fim, mas ainda passo pela Rua do Galo, viro para a Rua de Santo Espírito que me leva a passar novamente pela Igreja da Misericórdia, aqui sigo para a esquerda, para a Estrada Pêro de Barcelos e algures nesta estrada subo umas escadas que me levam à Rua do Castelinho, a qual subo chegando ao Forte de São Sebastião. Esta fortaleza, que deve o seu nome a Dom Sebastião e que representa o novo conceito de defesa da orla costeira, foi construída no século XVI por sugestão de Isidro de Almeida, o arquiteto responsável pelo seu desenho foi Tomaz Benedito de Pesaro.

Reza história, que no dia 28 de março de 1641, uma Quinta-feira Santa, que esta fortaleza foi conquistada na revolta contra a presença espanhola pela companhia de ordenanças da Ribeirinha, comandada por Manuel Jaques de Oliveira. Também foi importante na defesa do Porto Pipas, na altura o embarcadouro do comércio internacional marítimo e este era o meu próximo local a visitar pelo que volto à Estrada Pêro de Barcelos e começo a descer em direção ao mesmo. Após ver este importante ancoradouro sigo pelo passeio que ladeia a Marina de Angra, chego ao Cais da Alfândega e um pouco mais à estou nas Portas da Cidade, passando ao lado da Estátua do Vasco da Gama, onde dou por encerrada a minha caminhada, feliz por ter feito finalmente o passeio panorâmico todo de seguida, pelo menos assim pensava eu, mas ao chegar a casa abro a foto que havia feito ao painel e reparo que ainda não tinha sido desta que tinha feito o passeio completo, pois faltou ir ao quebra-mar, mas para dizer a verdade até fico feliz por não ter feito o percurso completo, pois assim tenho razões para, uma vez mais, ir explorar os cantos da bonita cidade de Angra do Heroísmo, a qual não me canso de explorar e pode ser que da próxima vez a Menina da Ilha Rainha me possa fazer companhia. Assim se passou mais um dia e se fez mais uma caminhada muito interessante e carregada de muita história tal como eu gosto. Um bem-haja e boas caminhadas!

Galeria das fotografias legendadas: Em breve


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